Os vinhos de San Juan e sua busca por mais frescura

vinhos de San Juan

Com 44.923 hectares de vinhedos em produção, San Juan é — depois de Mendoza — a segunda província com maior superfície cultivada com videiras da Argentina. Sua história como produtora de vinho remonta ao século XVII, mas, nas últimas décadas, os vinhos de San Juan cursaram um processo de transformações em que convivem fenômenos como o resgate de vinhedos de muitos anos e de variedades tradicionais, com o desenvolvimento de terroirs com perfis diferenciais como os dos vales de Pedernal e Calingasta.

Em San Juan, o vinho branco continua tendo maior presença à que ocupa em outras regiões produtoras da Argentina, ao ponto que os registros mais recentes do Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV) destacam que em 2020 a porcentagem de vinho branco superou a do tinto, representando 50,1%. E no que se refere ao vinho tinto, o Malbec se consolidou como principal variedade, empurrando o tradicional Syrah sanjuanino ao segundo lugar.

Mas, talvez o dado mais destacável seja que aos tradicionais perfis aromáticos e de corpo ligeiro que caracterizam os vinhos de San Juan, mais afins ao consumo quotidiano, hoje se soma uma grande diversidade de perfis que apontam em direção à frescura e à complexidade, oferecendo inclusive propostas para o consumo premium com muita identidade. 

“Nos últimos anos, houve uma mudança em direção a vinhos mais frescos, fáceis de tomar, frutados, adaptados principalmente a novos consumidores, com muita variedade de estilos e categorias de preço, e com um leque de alternativas”, afirma Mario Pulenta, da Bodega Augusto Pulenta, que também é o presidente da Câmara de Bodegueiros de San Juan, a entidade que agrupa as vinícolas da província.

vinos de San Juan

Vinhos de San Juan: uma I.G. a ser descoberta

Parte da revolução dos vinhos de San Juan ocorreu por conta do Valle de Pedernal, uma nova região vitivinícola (os primeiros vinhedos foram plantados na década de 1990), de onde surgem vinhos que souberam conquistar a crítica internacional.

“Desde 2007 o Vale de Pedernal é uma Indicação Geográfica (I.G.) vitivinícola, um lugar singular onde nascem vinhos argentinos de classe mundial”, destaca Pablo Gómez Sabatié, engenheiro-agrônomo da Bodega Fuego Blanco. Ele completa: “É um terroir tão excepcional como emergente; um oásis produtivo protegido pela barreira natural que oferece a serra de Pedernal, que nos permite elaborar grandes vinhos”.

“A descoberta do Vale de Pedernal sem dúvida ajuda a posicionar os vinhos, não só da província, mas também da Argentina ao nível mundial — coincide Paula González, enóloga da Pyros Wines. Já está demonstrado que San Juan consegue elaborar grandes vinhos graças ao terroir único que o vale possui, com vinhos de clima frio e solos calcários geológicos, que permitem formular um estilo único de Malbec de classe mundial”.

É claro que, em uma província onde os brancos têm grande peso, Pedernal não é exceção: “Tanto o Chardonnay como o Sauvignon Blanc conseguiram um caráter particular. Muita potência aromática, no caso do Chardonnay, e muita frescura pela acidez natural, com um caráter entre cítrico e fruta branca, como a pera. No caso do Sauvignon Blanc, nos surpreende a expressão tiólica, com notas de maracujá e poucas notas vegetais”, comenta Pablo Moraca, gerente de marketing da Finca Las Moras.

Uma característica particular de Pedernal que destaca Sabatié é como variam as alturas e os solos em poucos metros, em um mesmo vinhedo: “Você vai caminhando por uma fileira e conforme os metros vão passando, pode apreciar, claramente, o que depois se traduz em vinhos complexos e absolutamente diferentes conforme o setor de onde provenham. Estas características se dão só em lugares maravilhosos como Pomerol, na França, ou a Toscana, na Itália”.

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Resgate de tradições 

Outro vale sanjuanino que hoje brilha como origem de vinhos destacados é o de Calingasta que, encaixotado entra a Cordilheira dos Andes e a pré-cordilheira tem, ao contrário de Pedernal, uma extensa história vitivinícola. “Calingasta tem uma história vitícola de mais de 200 anos, da qual ainda restam muitas vinhas — conta o engenheiro-agrônomo Francisco “Pancho” Bugallo, da vinícola Cara Sur. Em nossa vinícola trabalhamos na recuperação dessas vinhas, plantadas todas em parreiras, das quais a principal variedade é a Criolla Chica (também chamada de Listán Prieto na Argentina). Algumas têm mais de 100 anos e continuam produzindo: estão equilibradas e são uma verdadeira maravilha as frutas que dão”.

Às variedades crioulas, como o Torrontés Sanjuanino e o Moscatel Branco, somam-se plantações mais recentes de Malbec e Cabernet Sauvigon. Os vinhos de Calingasta também se distinguem dos sanjuaninos de antes: sua carta de apresentação é a frescura, que resulta das características climáticas frescas e ventosas deste vale de altura (os cultivos estão entre os 1.350 e os 1.750 metros acima do nível do mar), que ao estar isolado por barreiras naturais, oferece condições de saúde aos vinhedos que dispensam o uso de agroquímicos para combater desordens nas videiras. Aqui, os vinhedos se regam com a água de degelo que desce da Cordilheira.

Mas o caminho da frescura e da qualidade enológica superior não só é perseguida nos Vales de Pedernal e Calingasta: os tradicionais vales de Ullum, Zonda e Tulum também surpreendem hoje em dia com novos perfis de vinhos. 

“A evolução que estes vales tiveram se relaciona tanto com as características técnicas de construção dos vinhedos, como também dos pontos de colheita e com a mecanização em vinícolas para realizar uma transformação de produtos com maior frescura, potência aromática e cor, tudo isso conduzido pelo trabalho na vinícola”, comenta Moraca, da Finca Las Moras.

Hoje, acrescenta, “na vinha se busca o ponto ideal de madurez para deixar para trás esses vinhos com altos teores alcoólicos, sobressaturados, com excessiva madeira. Agora se busca um equilíbrio para ter uma melhor acidez que permita obter mais frescura, mais longevidade aos vinhos com uma característica aromática imponente, com presença de madeira que não cubra sua elegância. É uma soma de detalhes o que faz com que hoje tenhamos condições de produzir vinhos muito mais elegantes e competitivos ao nível mundial, esses que tanto apreciam os consumidores da Argentina e do resto do mundo”.

O que podemos encontrar hoje nos tradicionais vales vitivinícolas de San Juan? “No Valle de Tulum se obtém vinhos frescos, frutados, com ótimos aromas, excelentes para consumo anual, conta Mario Pulenta. Bonarda, Malbec e Syrah em tintos, e Pinot Gris e Torrontés em brancos, são variedades que encontraram características muito interessantes neste vale. Os vales de Ullum e Zonda colaboram com maior concentração e cor, mantendo a frescura, principalmente nas variedades Syrah, Malbec e Cabernet Franc”. 

Em todos os casos, conclui Pulenta, “evoluiu-se para um perfil de vinhos mais internacional, após muito trabalho dos vinhedos, com menor intervenção na elaboração e pouco uso de madeira, o que permite apreciar as diferenças oriundas dos distintos vales e vinhos de San Juan”.

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