O Malbec, clássico e diversificado: os descritores da variedade em toda a Argentina

Em destaque / Malbec / Notícias / Sem categoria / WofA / 24 Março, 2020

By: Paz Levinson

No prefácio de um de seus guias, Hugh Johnson recomenda: “Se você é amante dos [vinhos da] Borgonha, então experimente Malbec”. Ele diz que a fascinação que os consumidores dos Borgonha têm em relação aos vinhos é difícil de imitar. As frutas vermelhas crocantes, o mineral misturado com as especiarias e o foco perfeito de suas fragrâncias florais são características desta variedade soberana. Ademais, ele afirma que os descritores do Malbec, aromas e sabores, não estão tão longe do Pinot Noir. A estrutura também tem semelhanças: “Acidez, firmeza e corpo suave como a seda”. 

É que a Malbec é uma das uvas mais interessantes no mundo. Tem aromas definidos e precisos que, embora se encontrem em várias outras variedades famosas, somente na Malbec estão todos juntos. São descritores únicos e que seduzem muitos consumidores.

 

Muitas Malbec

 

A Malbec é originária do sudoeste da França. É uma variedade hoje praticamente extinta em Bordeaux e plantada extensamente em Cahors. Também há ótimos exemplos no Loire, principalmente em Touraine. Estudada e admirada por Masters of Wine e Masters Sommeliers, já é clássica no mundo do vinho.

 

Quanto mais aprendemos sobre solos, impacto da altitude, temperaturas, luminosidade, tempos de colheita e estilos de vinificações, podemos definir e caracterizar mais rigorosamente a Malbec. Na habilidade de interpretar os movimentos desta variedade na Argentina, vemos que não há só um tipo de Malbec, mas muitos.

 

Três pontos que são fundamentais para entender as possibilidades aromáticas desta variedade. Em primeiro lugar, nos últimos oito anos, o momento da colheita começou a ser questionado e a uva começou a ser colhida madura (e não muito madura). Ou seja, foi buscado o ponto justo da vindima de acordo com a zona. Isso nos deixa ver todas as caras da Malbec, principalmente a mais fresca.

 

Em segundo lugar, outra das grandes mudanças foi vinificar sem a presença de madeira, o que nos deixa ver o terroir mais claramente. Isso quer dizer que podemos sentir os aromas das especiarias que o Malbec tem.

Um terceiro ponto foi o conhecimento mais profundo do solo para conseguir um melhor equilíbrio da planta: como regar as plantações e saber exatamente do que cada vinhedo precisa. Isso ajuda muito no equilíbrio, na maturação e, como consequência, no desenvolvimento dos precursores aromáticos.

Martín Kaiser é um viticultor argentino que liderou um estudo recente sobre o comportamento da Malbec nas diferentes regiões da Argentina. Os resultados reafirmam que o solo é um fator chave no desenvolvimento dos aromas, já que modifica a temperatura e fornece diferentes texturas.

 

O mapa do descritores do Malbec

 

Dentro de Mendoza, o Malbec mostra diferentes caras. Por exemplo, em Luján de Cuyo podemos encontrar vinhos com uma fruta vermelha pronunciada e algo de fruta negra madura que lembra ameixas e geleia de frutas vermelhas. A nota floral de violetas é característica e os aromas de especiarias são mais moderados. O aguaribay (pimenta rosada) é uma nuance que também pode ser encontrada entre outros descritores do Malbec em Luján de Cuyo.

 

Se vamos mais para o leste de Mendoza, em zonas mais baixas e solos mais profundos, o perfil do Malbec tem predominância das frutas vermelhas em geleia. Aparecem também algumas ervas aromáticas como orégano e tomilho, mas com taninos mais maduros e suaves.

 

No Valle de Uco, nas zonas altas com maior porcentagem de cultivos, as frutas negras são pronunciadas, e aparecem aromas frescos como eucalipto, pimenta branca, ervas aromáticas e uma forte carga de violetas. Os solos mais pedregosos exaltam os aromas de ervas. A concentração de carbonato de cálcio nos solos dá um perfil menos frutado e mais de especiarias.

 

Nos Valles Calchaquíes, o Malbec, além de ter aromas de doce de fruta vermelha, tem fragrâncias de tomates secos, páprica e leves nuances de defumado. É um perfil muito identificável e particular, o que o torna único.

 

A Patagônia é um território muito vasto, mas em geral, na zona de Rio Negro, o Malbec apresenta um perfil que se aproxima do produzido no Valle de Uco, apesar de se diferenciar muito no paladar e adquirir uma predominância floral. Na zona de Neuquén, o Malbec se aproxima mais ao perfil do leste de Mendoza.

 

Avançamos dia a dia na identificação de perfis e expressões do descriptores do Malbec de acordo com sua zona. O terroir tem um efeito muito importante e é por isso que quanto mais o conheçamos, mais poderemos identificar as caras do Malbec.

 

Ph. Bodega Trapiche


Etiquetas:,



Paz Levinson
Paz Levinson
Paz Levinson works between Argentina and France as Sommelier, Consultant and Educator. In 2015 she has won the A.S.I. & APAS Best Sommelier of Americas. She has worked at the three Michelin star restaurant of the Hotel Le Bristol with Marco Pelletier and now she is head Sommelier at La Ferme Saint Simon in Paris. Levinson commenced her wine career in her native Argentina, where she worked as head sommelier for a number of top-end restaurants, including Restó and Nectarine. She taught part-time at the Centro Argentino de Vinos y Espirituosas (CAVE) for five years and achieved her professional sommelier diploma from CAVE in 2006. At the same time, she completed a BA in literature, and she recently became the first Argentinean to pass the Court of Master Sommeliers’ Advanced sommelier certificate. Levinson was named Best Sommelier of Argentina 2014 and 2010 by the Argentinean Association of Sommeliers. She has written for a number of magazines, including Argentina’s El Conocedor. @pazlevinson Instagram: pazlevinson




Previous Post

Jancis Robinson: “A Argentina está fazendo Cabernet Franc melhor que o Loire”

Next Post

...O INESGOTÁVEL MUNDO DO MALBEC PARA PALADARES NOVOS





You might also like



0 Comment


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *