Colheita argentina 2020

Breaking / Em destaque / Notícias / 22 Abril, 2020

By: Joaquín Hidalgo

“Uma de cal e outra de areia”, é comum dizer na Argentina quando uma boa situação vem em seguida de uma ruim, ou vice-versa. E nesta vindima, que termina antecipadamente e com maior qualidade, nada parece mais justo que essa expressão com reminiscências taoístas.

 

Neste ano, dois fatores muito importantes confluíram: a vindima mais quente de que se tem notícia e a COVID-19. Se a segunda foi uma sombra que atemorizava as equipes nos vinhedos, a primeira foi responsável para que, em geral, tudo se adiantasse entre 3 e 5 semanas, de acordo com variedade e região. Quando a pandemia se tornou um problema realmente sério e a quarentena fechou as portas das casas e negócios, quase não sobrava uva para colher.

 

“Foi muito estressante”, diz Matías Ciciani, enólogo da Escorihuela. “Temíamos não poder vindimar, mas conseguimos colocar toda a uva na bodega na terceira semana de março, no dia em que se declarava a quarentena,” lembra aliviado.

 

A experiência dele é a de quase todos. Com uma primavera e um verão quentes e secos, a maturação acelerada do açúcar obrigou a colher antecipadamente, inclusive com polpa um pouco verde. Martín Kaiser, agrônomo da Doña Paula, traduz em números: “Em Luján de Cuyo, neste ano registramos 55 dias com temperaturas acima de 32°C, quando o normal é 30 ou 31”. Assim, a vindima se condensou em poucas semanas.

 

“Até o começo de março maturaram quase todas as Cabernet e Malbec juntas”, diz Marcelo Belmonte, diretor de Viticultura do Grupo Peñaflor, “e logisticamente foi muito complexo: colher, moer e fermentar neste contexto deu muito trabalho”, explica. Mas ao mesmo tempo, quase não expôs os trabalhadores da vinha e das bodegas à COVID.

 

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Mendoza, as uvas na medida

 

“Em anos quentes, a diferença de qualidade é feita pelo vinhedo”, sentencia Sebastián Zuccardi, responsável por vinhedos e pela elaboração da bodega familiar. E adiciona: “Se os vinhedos estiveram estressados, o calor força tudo, as plantas se bloqueiam e não tem jeito de maturar corretamente”.

 

Alejandro Sejanovich, viticultor e enólogo de Manos Negras, reflete na mesma sintonia. “Esta vindima vai contra os manuais – diz – porque o calor é inimigo do frescor; mas se a irrigação acompanhou bem as plantas em equilíbrio, os resultados para este ano serão surpreendentes.”

 

Este ponto parece ter sido o que aconteceu com vindima 2020. Ao contrário do esperado, quem deu mais importância para a leitura da vinha que dos manuais colheu uvas com acidez elevada. “Com a uva al dente, esta vindima é extraordinária”, diz Hervé Birnie Scott, diretor de Enologia da Chandon Argentina. “A cor e o frescor deste ano serão memoráveis”, conclui.

 

Mas se a aposta foi na sorte entendendo bem os vinhedos, o desafio também foi interpretar as uvas para elaborá-las do melhor modo. Pablo Richardi, enólogo diretor da Flechas de Los Andes, diz: “No começo tínhamos medo de estar colhendo quando estava verde. Mas quando começamos a analisar a uva, ajustamos os modelos de fermentação para uma extração na medida”.

Na mesma linha, Santiago Mayorga, enólogo da Cadus Wines, garante que “os tempos exatos de macerações e o trabalho de prensagem foram muito importantes”.

 

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Os extremos

 

Nos vales Calchaquíes, ao contrário, o ano foi moderado, muito nublado e com chuvas acima da média. Lá “a maturação veio pouco atrasada, mas com elevados parâmetros gustativos para os tintos”, diz Thibaut Delmotte de Colomé. Na mesma sintonia, Rafael Domingo, enólogo da bodega Domingo Hermanos, afirma que os Torrontés “têm um perfil mais fresco que em outros anos”.

 

Na Patagônia, por sua vez, a vindima estava avançada – seguindo o padrão de adiantamento de duas semanas – mas não terminada com a chegada da COVID-19. “Não foi nada fácil – diz Leonardo Puppato, enólogo da Bodega Schroeder– porque tudo foi um problema – de transitar a ter os equipamentos de trabalho ativos. Mas trabalhamos para garantir a segurança e a qualidade”.

 

Balanço em números. Com tudo isso, e à espera dos números definitivos, o calor e a falta de água em Mendoza e San Juan impeliram os rendimentos para baixo. As estimativas do Instituto Nacional de Vinicultura da Argentina, para esta vindima e com os dados até 12 de abril, são de uma redução de 24%.


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Joaquín Hidalgo
Joaquín Hidalgo
Mendocino de nacimiento (1978), se recibió en el Liceo Agrícola como enólogo en la promoción 1996. Al año siguiente, se inscribió en periodismo en la Universidad Nacional de La Plata, de donde egresó en 2002. Desde entonces vive en Buenos Aires donde construyó una lar- ga carrera combinando sus dos pasiones: la escritura y los vinos. Ha trabajado en casi todos los medios que le dieron co- bertura al tema. Desde el Country Herald a la Revista del Club del Vino, en los que escribió sus primeras notas firmadas, a Playboy, Revista JOY y La Mañana de Neu- quén, diario del que sigue siendo columnista dominical desde 2007. Colaboró como catador y cronista para Aus- tral Spectator relevando Chile y Perú en la edición 2005 y luego coeditando la guía entre 2011 y 2012. A contar de 2014 escribe semanalmente para el diario La Nación, donde actualmente tiene una columna llamada Sin Filtrar los días viernes en el puntocom. A principios de septiembre de 2019 fue contratado por la plataforma Vinous para reportar Argentina y Chile. Joaquín Hidalgo Born in Mendoza in 1978, Joaquin received his Certificate in Winemaking from the Liceo Agrícola in 1996. The following year, he took Journalism at the Universidad Nacional de la Plata, graduating in 2002. Since then he has lived in Buenos Aires, where he has built up an extensive career combining his two passions: writing and wine. He has worked for almost every media outlet that covers the area from the Country Herald to the Revista del Club de Vino, where he published his first signed articles, Playboy, Revista JOY, and La Mañana de Neuquen, for whom he has been a columnist since 2007. He has been a taster and correspondent for the Austral Spectator, covering Chile and Peru in 2005 and then co-editing the guide in 2011 and 2012. Since 2014, he has written a weekly column for the La Nación newspaper for whom he also writes a weekly blog called Sin Filtrar on their website. In September 2019, he was hired by the Vinous platform to cover Argentina and Chile.




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